sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Mensagem

“Lembrei-me de uma manhã em que encontrei um casulo preso à casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei algum tempo, mas estava com pressa e ele demorava muito. Enervado, debrucei-me e comecei a esquenta-lo com meu sopro. Eu o esquentava, impaciente, e o milagre começou a desfiar diante de mim em ritmo mais rápido que o natural. Abriu-se o invólucro e a borboleta saiu se arrastando. Não esquecerei jamais o horror que tive então: suas asas ainda não se haviam formado, e com todo o seu pequeno corpo trêmulo ela se esforçava para desdobra-las. Debruçado sobre ela, eu ajudava com meu sopro. Em vão. Um paciente amadurecimento era necessário e o crescimento das asas, devia se fazer lentamente ao sol; agora era muito tarde. Meu sopro havia obrigado a borboleta a se mostrar, toda enrugada, antes do tempo. Ela se agitou, desesperada, e alguns segundos depois morreu na palma da minha mão.

Creio que esse pequeno cadáver é o maior peso de minha consciência. Pois compreendo atualmente, é um pecado mortal violar as leis da natureza. Não devemos impacientar, mas seguir o ritmo eterno.

Sentei-me sobre um rochedo para assimilar com toda tranqüilidade esse pensamento do ANO NOVO. Ah! Se essa borboleta pudesse esvoaçar sempre diante de mi, e me mostrar o caminho”.

(KALANTIZAKIS, NIKOS: ZORBA, O GREGO. PAGNS. 117 E 118).

Instantes


Foi feita ao grande e consagrado escritor argentino Jorge Luís Borges, na época com 85 anos de idade, a seguinte pergunta:
Se voltasse a viver novamente a minha vida, na próxima, tentaria cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Teria menos pressa e menos medo.
Daria valor secundário às coisas secundárias.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria muito mais alegre do que fui: só na alegria existe vida.
Manteria distâncias enormes das pessoas ciumentas e possessivas.
Seria mais espontâneo.
Correria menos riscos, viajaria mais, comtemplaria mais entardeceres, subir ia mais montanhas, nadaria mais rios e igarapés.
Seria mais ousado: a ousadia move o mundo.
Iria a mais lugares onde nunca fui.
Tomaria mais sorvetes e menos sopa, teria menos problemas reais e nenhum imaginário.
Eu fui uma dessas pessoas que vivem preocupadamente cada minuto de sua vida, claro que tive momentos de alegria.
Mas se pudesse voltar a viver tentaria ter somente bons momentos.
Disso é feita a vida, só de momentos.
Nunca percas o agora.
Mesmo porque, nada nos garante que estaremos vivos amanhã.
Eu era um desses que não ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva.
Se voltasse a viver, começaria a andar descalço no inicio da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Jamais experimentaria os sentimentos de culpa e de ódio.
Teria amado a liberdade e teria mais amores do que tive.
O amor é o sentimento mais importante e completo do mundo.
Viveria cada dia como se fosse um prêmio, como se fosse o ultimo.
Daria mais voltas na minha rua, comtemplaria mais amanheceres e brincaria mais do que brinquei com as crianças do meu bairro.
Teria descoberto mais cedo que só o prazer nos livra da loucura.
Tentaria uma vida nova todos os dias, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, como sabem, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...